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Uma visão diferente da homossexualidade... De acordo com a Bíblia

Uma resposta da rede Uma Ligação Comum aos ensinamentos anti-homossexuais da Torre de Vigia
Nota do editor: à excepção das citações da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, extraídas da versão em português, alguns motivos de força maior obrigaram-nos a traduzir os excertos de outras publicações da Torre de Vigia mais antigas e menos disponíveis referidas neste texto a partir das suas versões originais em inglês dos EUA.
A visão da Torre de Vigia:
“Você nunca pensaria em escolher comer uma refeição feita de lixo imundo, certo? O que acontecerá, então, se você estiver continuamente exposto a lixo mental? É provável que ele se tornará parte do seu pensamento. Quando está a ver um filme, você está, com efeito, a associar-se com o tipo de pessoas retratadas no ecrã. Todos os filmes são deliberadamente desenhados para o envolver emocionalmente com as personagens, muitas vezes suscitando simpatia pelo malfeitor – o fornicador, o homossexual, até o assassino. Você deseja ficar profundamente envolvido dessa maneira com homossexuais, lésbicas, fornicadores, adúlteros e criminosos?” - Sua Juventude – O Melhor Modo de Usufrui-La, capítulo 16
Ao longo dos anos, as publicações da Torre de Vigia condenaram repetidamente a homossexualidade, afirmando que as relações entre pessoas do mesmo sexo são proibidas pelas Escrituras. Os termos mais utilizados pelas publicações da Torre de Vigia para descrever a homossexualidade são “detestável” e “abominação”. Como Testemunhas de Jeová, fomos ensinados a pensar de nós mesmos dessa maneira e a acreditar que as passagens da Bíblia comummente citadas nas publicações da Torre de Vigia eram correctamente interpretadas e que a nossa única esperança de salvação era tentarmos ter um estilo de vida heterossexual ou pelo menos permanecermos no celibato para o resto das nossas vidas. Os homossexuais assumidos que são atraídos pela pregação das TJ e acabam por se converter são por vezes incentivados a casar (é uma ideia equivocada mas comum que isso irá “curar” a sua homossexualidade), mas de resto espera-se que vivam uma vida de absoluto celibato a menos que se casem com um membro do sexo oposto. É exigido às Testemunhas de Jeová GLBT que preguem de porta em porta, e frequentemente têm que distribuir publicações da Torre de Vigia que incluem declarações condenatórias contra as relações entre pessoas do mesmo sexo. Muitos desses indivíduos, incapazes de conciliar a sua sexualidade com aquilo que lhes ensinaram que a Bíblia dizia sobre eles, têm sido levados a entrar em relacionamentos heterossexuais contra a sua natureza, frequentemente com resultados desastrosos. Outros, afligidos por sentimentos de hipocrisia e/ou de auto-condenação, numa tentativa de escaparem às suas consciências pesadas, dominadas pela culpa, acabaram por se render ao alcoolismo, à toxicodependência, ou, no pior (mas demasiado frequente) dos cenários, ao suicídio.
Este ensaio vai examinar as passagens das Escrituras comummente utilizadas para atacar os homossexuais com a Bíblia. Iremos demonstrar claramente que as passagens da Bíblia que a Torre de Vigia costuma utilizar estão mal traduzidas ou são usadas fora do contexto. Muitos investigosos académicos que estudam os textos originais da Bíblia em Hebraico e Grego chegaram a conclusões diferentes sobre a forma mais correcta de utilizar esses versículos. Você poderá encontrar os fundamentos desta pesquisa nas obras que esses autores publicaram. Algumas delas estão enumeradas mais abaixo, sob o título “Leituras Recomendadas”. Esperamos que, tal como os habitantes da antiga cidade de Bereia, você leia as palavras abaixo com uma mente aberta, deixando todas as ideias equivocadas e preconceitos de lado. (Todas as passagens bíblicas citadas foram extraídas da Tradução do Novo Mundo, a tradução da Bíblia utilizada pelas Testemunhas de Jeová.)
Génesis 19:1-28
A antiga história de Sodoma e Gomorra tem sido usada ao longo dos séculos como se fosse uma condenação da homossexualidade, ao ponto de certos actos sexuais terem passado a ser designados como “sodomia”. Os versículos desta história a que mais comummente se refere para se provar que os sodomitas eram homossexuais são os versículos 4 e 5: “Antes de se poderem deitar, os homens da cidade, os homens de Sodoma, cercaram a casa, desde o rapaz até o velho, todo o povo numa só turba. E chamavam a Ló e diziam-lhe: “Onde estão os homens que foram ter contigo hoje à noite? Traze-os para fora a nós, para que tenhamos relações com eles.” Ao examinarmos esta passagem, a primeira coisa que vemos é que todo o povo, numa só turba, pediu que Ló trouxesse os visitantes a eles. Se acreditarmos que o relato de Sodoma e Gomorra é uma condenação da homossexualidade, então teremos que aceitar o facto de que a cidade inteira era composta por homossexuais. Se olharmos para o capítulo anterior, Génesis 18: 16-33, veremos um relato em que Abraão negocia com Deus para que se poupe o povo de Sodoma, tendo Deus prometido no final: “Não a arruinarei [a cidade] por causa dos dez.” (versículo 32). Deus prometeu a Abraão que Sodoma não seria destruída se ele apenas achasse dez “homens justos” na cidade. Se aceitarmos a lógica da Torre de Vigia, isto significaria que os “homens justos” aqui referidos eram heterossexuais. Neste ponto, precisamos de nos perguntar a nós mesmos: quais seriam as probabilidades de menos de dez pessoas na inteira região de Sodoma e Gomorra serem heterossexuais? A resposta óbvia é: nenhumas. Seria impossível.
Se esta passagem não se estava a referir à homossexualidade, então a que se referia? Se olharmos para as Escrituras em hebraico, encontraremos uma utilização interessante de algumas palavras diferentes. Quando a turba grita: “Onde estão os homens que foram ter contigo hoje à noite?”, a palavra hebraica traduzida como “homem” é 'enowsh, que, quando traduzida literalmente, significa “mortal” e aplica-se a seres humanos em geral, como se pode ver neste excerto de um léxico bíblico em inglês.

Isto indica que a turba sabia que Ló tinha visitas, mas não tinham a certeza do sexo delas. A palavra hebraica para “homem” (utilizada nesta mesma passagem em Génesis 19:8) é inteiramente diferente: 'iysh.

Somos obrigados a perguntar: porque é que essas pessoas (supostamente) homossexuais haviam de querer fazer sexo com dois forasteiros se não tinham certeza do sexo deles?
A passagem traduzida como “Traze-os para fora a nós, para que tenhamos relações com eles” também precisa de ser examinada. Outras traduções da Bíblia lêem: “para que possamos conhecê-los”. A palavra hebraica aqui traduzida como “ter relações sexuais” ou “conhecer” é yada.

Esta palavra, yada, aparece nas Escrituras Hebraicas um total de 943 vezes. À excepção de dez casos, em todas essas ocorrências a palavra é usada no contexto de “familiarizar-se com alguém”. Se o escritor tivesse a intenção de transmitir ao público leitor que a turba queria explicitamente ter relações sexuais com os forasteiros, ele teria usado a palavra hebraica shakab, que denota claramente actividade sexual.

A tradução correcta, portanto, deveria verter o texto de maneira a transmitir aproximadamente esta ideia: “Onde estão os mortais que foram ter contigo esta noite? Traze-os a nós para que nos possamos familiarizar com eles”.
Então, se a história de Sodoma e Gomorra não era uma condenação da homossexualidade, o que é que ela estava a tentar transmitir? Dois versículos noutro lugar da Bíblia sintetizam a história desta maneira: “Eis que este é o que mostrou ser o erro de Sodoma, tua irmã: Orgulho, fartura de pão e a despreocupação do sossego foram [as coisas] que vieram a ser dela e das suas aldeias dependentes, e ela não fortaleceu a mão do atribulado e do pobre. E elas continuaram a ser soberbas e a praticar uma coisa detestável diante de mim, e eu finalmente as removi, assim como vi [ser conveniente].” - Ezequiel 16: 49,50. Costuma-se supor que a “coisa detestável” a que esta passagem se refere é a homossexualidade. Mas o facto é que a palavra hebraica aqui utilizada é tow'ebah, que traduzida literalmente significa “cometer idolatria”.

Isto pode ser visto no texto original no livro de Génesis, capítulo 19, versículo 8: “Por favor, eis que tenho duas filhas que nunca tiveram relações com um homem. Por favor, deixai-me trazê-las para fora a vós. Fazei então com elas o que parecer bem aos vossos olhos.” Somos obrigados a perguntar: se a casa de Ló estava cercada por homossexuais, porque é que ele iria oferecer mulheres à turba? Repare que estas mulheres eram virgens. Repare também que os sodomitas eram pagãos. Os sacrifícios de virgens aos ídolos eram uma prática comum em Sodoma. Portanto, podemos concluir que Ló estava a oferecer as suas filhas para um sacrifício de virgens para apaziguar a turba, num esforço para proteger os visitantes.
Nas Escrituras Gregas, a história de Sodoma é sintetizada desta maneira: “e, reduzindo a cinzas as cidades de Sodoma e Gomorra, ele as condenou, estabelecendo para as pessoas ímpias um modelo das coisas que hão de vir” (2 Pedro 2:6). Isto corrobora a síntese de Ezequiel, uma vez mais demonstrando que aquelas eram “pessoas ímpias”, por outras palavras, idólatras, não adoradores do verdadeiro Deus.
A história de Sodoma e Gomorra, portanto, é uma condenação dos adoradores de ídolos e de uma sociedade inóspita e avarenta. O julgamento desta região não teve nada, absolutamente nada, a ver com a homossexualidade!
Levítico 18:22
Levítico 20:13
A mensagem era clara para os antigos israelitas: o sémen servia para ser usado apenas para um único propósito: a procriação. O sémen “desperdiçado”, por masturbação, penetração anal ou homossexualidade, não devia ser tolerado. Era um “jogo de números”. Um dos éditos mais antigos da Bíblia, cujo tema foi repetido ao longo do Velho Testamento, dizia “crescei e multiplicai-vos”. Os antigos israelitas tinham que obedecer a muitas regulações estritas. Os “escolhidos de Deus” entendiam que todas estas regulações eram igualmente importantes. Nas Escrituras Gregas, Tiago salienta este facto quando afirma: “Pois, quem observar toda a Lei, mas der um passo em falso num só ponto, tem-se tornado ofensor contra todos eles.” As publicações da Torre de Vigia, porém, salientam de modo selectivo duas passagens do livro de Levítico e ignoram estas palavras de Tiago que afirmam, essencialmente, que, se alguém quebrou uma única das leis, quebrou-as a todas. Levítico 19:27 condena que se corte o cabelo e se faça a barba. Você alguma vez viu uma Testemunha de Jeová com cabelo comprido e barba? Levítico 19:19 condena que se use roupa feita de mais de um tipo de fibra. Quantas Testemunhas de Jeová usam roupa feita de 50% de algodão e 50% de poliéster? Se levarmos a Bíblia à letra, essas pessoas são tão culpadas como os homossexuais. Quando os fariseus lhe fizeram perguntas sobre as antigas leis, Jesus respondeu: “Não vim destruir, mas cumprir.” (Mateus 5:17). Por outras palavras, o Cristianismo e o amor a Deus e ao próximo eram uma substituição dos antigos códigos, muitos dos quais tinham deixado de ser práticos ou sequer relevantes.
Mas será que estas duas passagens realmente condenam a homossexualidade? Se olharmos para as Escrituras em hebraico, veremos uma condenação diferente. Em parte de Levítico 20:13, lê-se o seguinte: “E quando um homem se deita com um macho assim como alguém se deita com uma mulher (...)”. Se o escritor pretendesse dizer que a homossexualidade estava aqui a ser condenada, ele provavelmente preferiria utilizar a palavra hebraica 'iysh, que significa “homem”, ou mais precisamente, “pessoa do sexo masculino”. Ao invés, o autor utiliza uma palavra hebraica muito mais complicada, zakar, que traduzida literalmente significa “uma pessoa digna de reconhecimento”.

Esta palavra era usada para designar os altos sacerdotes das religiões idólatras ao redor de Israel. As pessoas acreditavam que, se prestassem favores sexuais ao alto sacerdote (um ritual de fertilidade), era-lhes garantida a abundância de filhos e de colheitas. Então, se virmos o texto de Levítico 18:22 atendendo ao seu próprio contexto, teremos também que levar em conta o versículo 21, que lhe antecede: “E não deves permitir que alguém da tua descendência seja devotado a Moloque”. O que temos aqui, na verdade, são avisos feitos aos israelitas para que eles não se envolvessem nos rituais de fertilidade dos adoradores de Moloque, que frequentemente requeriam a prestação de favores sexuais ao sacerdote. Se esta fosse uma mera condenação dos homossexuais, o escritor teria empregue uma linguagem mais clara.
Romanos 1:26-27
1 Coríntios 6:9-11
1 Timóteo 1:9-11
A língua grega, tal como a hebraica, é muito mais descritiva do que a portuguesa. Por exemplo, enquanto nós temos a palavra “amor”, no grego existem as palavras agapé, storge, philia e eros, e cada uma descreve uma forma diferente de amor. Todos sabemos de palavras que mudam de sentido conforme a época e as circunstâncias, e um termo que outrora era perfeitamente inofensivo até pode ter-se tornado um insulto hoje em dia. Por isso, é fácil compreender porque é que certas palavras no antigo grego podem ser mal-interpretadas, tais como os termos “homens que se deitam com homens”, “efeminado”, “homossexual” e “depravado”, que muitos vêm nas passagens bíblicas acima mencionadas. As duas palavras em grego usadas nas passagens acima que são comummente mal traduzidas dessa forma são arsenokoites e malakos. Os estudiosos académicos da Bíblia pensam hoje em dia que arsenokoites significa “prostituto masculino do templo”, tal como referido nas Escrituras Hebraicas em Deuteronómio 23:17-18. O verdadeiro significado desta palavra, porém, acabou por se perder ao longo da História, por ser um termo em calão que, traduzido à letra, poderia significar “cama levantada” ou “homem de cama”.

O grego malakos, traduzido literalmente, significa “não-vertebrado” (alguns linguistas académicos traduzem a palavra como “mole” ou “cobarde”).

O que é importante salientar aqui é que ambas as palavras são substantivos. No grego antigo, não existe nenhuma palavra conhecida para definir a homossexualidade. Ela foi sempre exprimida como um verbo. Tal como nas passagens em hebraico examinadas acima, as Escrituras Gregas estão a referir-se àqueles que se envolviam em práticas idólatras, muitas das quais giravam em torno do sexo em troca de favores. Nem os homossexuais nem a ideia explícita da homossexualidade aparecem em nenhum lado nestas passagens. Se o escritor tivesse a intenção de fazer uma declaração que condenasse claramente os homossexuais, ele utilizaria o verbo adequado em grego em vez dos substantivos supracitados, directamente relacionados com a cobardia e a idolatria.
Mas que dizer da afirmação de Paulo em Romanos 1, onde se diz que as “fêmeas trocaram o uso natural de si mesmas por outro contrário à natureza; e, igualmente, até os varões abandonaram o uso natural da fêmea e ficaram violentamente inflamados na sua concupiscência de uns para com os outros”? A resposta está contida nas palavras de Paulo nos versículos 22 e 23: “Embora asseverassem ser sábios, tornaram-se tolos e transformaram a glória do Deus incorruptível em algo semelhante à imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de bichos rastejantes.” Como é óbvio, Paulo refere-se aqui à idolatria. Tal como mencionado acima quando se examinou as Escrituras Hebraicas, muitas religiões pagãs e adoradoras de ídolos nos dias de Paulo ensinavam que quem prestasse favores sexuais ao alto sacerdote seria recompensado com fertilidade nas suas colheitas e na sua descendência. Torna-se claro que Paulo não se estava a referir a relacionamentos amorosos entre pessoas do mesmo sexo, mas que as suas condenações recaíam sobre os heterossexuais que, contrariando a sua própria natureza sexual, prestavam favores sexuais aos líderes das religiões pagãs na expectativa de uma recompensa por parte dos deuses pagãos.
Em conclusão
Não existe nenhuma referência negativa na Bíblia aos relacionamentos amorosos entre pessoas do mesmo sexo. De facto, até existem duas referências positivas nas Escrituras Hebraicas feitas ao amor entre duas pessoas do mesmo sexo:
2 Samuel 1:26 diz: “Estou aflito por ti, meu irmão Jonatã, tu me eras muito agradável. Teu amor a mim era mais maravilhoso do que o amor das mulheres.”
Rute 1:16, 17 diz: “E Rute passou a dizer: 'Não instes comigo para te abandonar, para recuar de te acompanhar; pois, aonde quer que fores, irei eu, e onde quer que pernoitares, pernoitarei eu. Teu povo será o meu povo, e teu Deus, o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e ali serei enterrada. Assim me faça Jeová e assim lhe acrescente mais, se outra coisa senão a morte fizer separação entre mim e ti.'”
Embora não seja feita nenhuma referência a nenhuma actividade sexual explícita entre estes dois casais de pessoas do mesmo sexo, deve-se salientar que estes casais tinham feito alianças entre si. Para os antigos israelitas, uma aliança era vista como um laço sagrado, uma união poderosa entre duas pessoas.
Embora não esperemos que a Sociedade Torre de Vigia venha um dia a mudar a sua visão da homossexualidade, temos esperança que aqueles que foram afectados pela posição negativa da Torre de Vigia em relação às pessoas GLBT leiam de novo estas passagens bíblicas, desta vez no contexto em que elas deviam ser compreendidas desde sempre. Nós aqui na rede Uma Ligação Comum estamos disponíveis para oferecermos o nosso apoio, aceitação e amor aos nossos irmãos e irmãs GLBT em todo o mundo. Por favor, contacte-nos!
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