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"Dou graças à Internet por me ter permitido entrar em contacto com várias ex-Testemunhas de Jeová gays, lésbicas e bissexuais que tentaram viver como heterossexuais e falharam miseravelmente, magoando muitas pessoas ao longo do caminho."
A história de Craig
Uma das coisas que mais gosto no meu apartamento é o espaçoso armário embutido no meu quarto. Há muito espaço lá para eu poder ponderar sobre o meu guarda-roupa escasso antes de decidir qual será a minha roupa para o dia. Mantenho a porta sempre aberta.
Esta é a minha vida como um homem homossexual. Mas não foi sempre assim, como irei contar em seguida.
Fui educado na religião das Testemunhas de Jeová desde que nasci. Na sua redoma, acreditam que são os únicos detentores da verdade. As TJ têm regras fundamentalistas e estritas contra praticamente tudo – especialmente a homossexualidade. Todo o sexo fora do casamento entre um homem e uma mulher é completamente proibido. Aos seus olhos, seguir estas regras garante-lhes a salvação. E para cúmulo: quando o Dia do Juízo chegar, eles estão convencidos de que serão os únicos que irão sobreviver e transformar a Terra num paraíso onde viverão para sempre sem doenças ou morte. Se você cometeu o erro de lhes abrir a porta num sábado de manhã, certamente ouviu a sua mensagem.
Assumi-me há 20 anos, numa parada do Orgulho Gay. Eu tinha 22, quase 23 anos. No Verão anterior (1982), a minha família tinha viajado para o Havaí e eu fiquei para trás. Foi a primeira vez em que pude realmente abrir as minhas “asas homossexuais” e explorar a comunidade. Conheci um homem que trouxe para minha casa e “praticámos actos homossexuais” 21 vezes nos quatro dias seguintes. Ele era de outro estado, e prometemos manter-nos em contacto.
Pouco depois de os meus pais terem regressado (e ninguém fazia a mais pálida ideia do que tinha acontecido debaixo do seu tecto), mandaram-me ir viver com a minha avó porque eu e o meu pai estávamos sempre a brigar um com o outro. Avancemos um pouco até Maio de 1983: eu estava na baixa de Minneapolis e por alguma razão enigmática a minha avó aproveitou para remexer nas minhas coisas pessoais, onde descobriu cartas da minha “outra vida” perversa como um (glup!) homossexual, incluindo o meu caso gay do Verão anterior. Naturalmente, a sua primeira reacção como uma boa cristã foi chamar os meus pais.
Depois de chegarem à casa da minha avó, os meus pais revistaram o resto das minhas coisas e confiscaram todas as cartas que qualquer pessoa (não importava quem fosse) me tinha alguma vez escrito. Depois de eles sentirem que já tinham provas suficientes, deram início à sua missão sagrada de me encontrarem.
Imagine a minha surpresa quando eu entrei num clube nocturno na 1.ª Avenida e soube que os meus pais estavam lá à minha espera. O meu pai estava na entrada da 7ª. Rua a falar com um “punk” (talvez para tentar convertê-lo) e disse-me que a minha mãe estava lá fora à espera no carro, porque havia uma “emergência familiar” e eu tinha que vir para casa imediatamente. Depois de eu entrar no carro, eles começaram a interrogar-me sobre as minhas intenções quanto às nossas crenças religiosas (as das Testemunhas de Jeová). A meio caminho de casa imaginei que eles soubessem de alguma coisa. Eu estava cansado de viver uma mentira e uma vida dupla, por isso decidi assumir-me naquele mesmo instante. Eu confirmei os seus piores receios, firme na minha posição de que sou como sou e nada me poderia mudar.
Os meus pais ofereceram-se para me mudarem para outro estado, casarem-me e varrerem toda a situação para debaixo do tapete. Eu não podia fazer isso a mim mesmo e a outra pessoa, de modo nenhum. Depois de um mês de negociações eles denunciaram-me aos anciãos (os líderes da congregação TJ que eu frequentava), que me desassociaram (isto é, excomungaram), e acabei por ser separado de todas as pessoas que conheci durante o meu crescimento, incluindo a minha própria família.
Parece mau, não parece? Bem, para ser honesto, depois de todos estes anos, estar fora da organização bate por muitos pontos a ideia de ainda estar lá dentro. Se eu ainda pertencesse à organização, eu seria um escravo daquela religião e muito provavelmente estaria casado com alguém que eu não amava. Provavelmente teria tentado suicidar-me várias vezes. Não teria qualquer felicidade pessoal.
Sei que isto é um facto. Dou graças à Internet por me ter permitido entrar em contacto com várias ex-Testemunhas de Jeová gays, lésbicas e bissexuais que tentaram viver como heterossexuais e falharam miseravelmente, magoando muitas pessoas ao longo do caminho.
Por ter saído e assumido a minha sexualidade, libertei-me de uma infância limitada e de uma vida de escravidão no seio das Testemunhas de Jeová. Pude finalmente libertar-me e ser quem sou. Embora eu tenha sido completamente separado da minha família, isso tornou-me uma pessoa mais forte para ser independente e fazer as minhas próprias decisões.
Imagine aqueles que ficam no armário. Eles têm dez vezes mais hipóteses de terem depressão, tentarem suicidar-se, sofrer de baixa auto-estima (já para não referir aqueles que procuram um engate gay em Loring Park a horas tardias, com uma cadeirinha de bebé no banco de trás do carro). Alguma vez reparou em como os homens homossexuais tendem a ter um melhor aspecto quando envelhecem? Quando nós não nos odiamos, é surpreendente como até a nossa aparência melhora e muito.
Eu sei que isto soa mais sério do que eu gostaria, mas detesto ver alguém a lamentar-se, na lama. Ainda não conheci ninguém que consiga justificar razoavelmente que se viva no armário, especialmente nos nossos tempos.
Se você estiver a ter problemas em assumir-se, quero ouvi-lo. Por favor conte-me a sua história por correio electrónico. Prometo ouvi-lo.
Nestes largos anos decorridos desde a fundação da rede Uma Ligação Comum, aprendemos que cada um dos nossos membros tem uma história única para contar sobre as suas experiências como um membro das Testemunhas de Jeová. Temos publicado as histórias de alguns dos nossos membros, na expectativa de que você encontre a força e a esperança de que precisa, e acima de tudo, a consciência de que não está só.