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A RAIVA
por uma antiga Testemunha de Jeová que é hoje uma terapeuta familiar e matrimonial
A raiva. É um sentimento que nos pode consumir e destruir; é um sentimento que pode estabelecer limites apropriados entre nós e os outros e proteger-nos; é também um sentimento com o qual a maioria de nós não sabe lidar. Muitos de nós fomos ensinados a pensar que a raiva era “imprópria para um cristão”, e as pessoas esperavam que nós escondêssemos e reprimíssemos os nossos sentimentos menos atraentes. Somos capazes de estar a sentir raiva por termos perdido as nossas famílias e amigos, ou sentir que perdemos tempo e experiências preciosas, ou até sentir raiva por termos sido traídos e rejeitados por aquelas pessoas que antes acreditávamos que nos aceitavam e acolhiam num abraço amoroso e confiante.
Estes são sentimentos normais. Porém, tendo sido treinados para evitar sentimentos de raiva, muitos de nós não sabem como lidar com eles agora que existe alguma liberdade para verdadeiramente sentir. Para alguns, a disfunção surge quando se continua a negar a raiva e os ressentimentos existentes. Nós continuamos a fingir sorrisos, a manter as boas aparências, sem nunca deixar que ninguém, e talvez nem nós mesmos, saiba o que se passa cá dentro. Esta forma de encarar a nossa raiva pode conduzir à depressão ou a comportamentos auto-destrutivos, tais como o consumo excessivo de álcool, o abuso de drogas, ou mesmo o suicídio. Quando a raiva existe e não tem nenhuma forma de se exteriorizar, ela funciona como uma válvula sob pressão, à procura de uma forma de a aliviar. Se ela não puder ser dirigida ao objecto da nossa ira, então ela pode manifestar-se de modo deslocado (projectando-se numa vítima involuntária – o companheiro, uma criança, o trânsito, alguém que discorde de nós, o cão) ou reprimida (voltada para dentro, contra o próprio indivíduo, sob a forma de depressão ou comportamentos auto-destrutivos). A raiva é exprimida, mas não de uma forma saudável ou apropriada, e em última análise apenas provoca mais problemas.
Outro dos perigos da raiva é ficar preso num círculo vicioso. Esta é uma situação em que a raiva é exprimida em direcção ao objecto pretendido, mas nunca abandonada. A pessoa irada nunca deixa de sentir raiva, preferindo ao invés agarrar-se a essa raiva como uma fonte de segurança. A raiva passa a ser uma forma de nos identificarmos como pessoas. Infelizmente, a verdadeira vítima neste cenário é a própria pessoa que sente essa raiva. A raiva perturba todos os outros sentimentos, impede o crescimento e interfere com os relacionamentos pessoais. Em vez de o indivíduo passar pela raiva para poder chegar à aceitação e talvez mesmo ao perdão, ele agarra-se a essa mesma raiva e continua a alimentá-la. O indivíduo nunca chega a conseguir ir em frente em direcção a uma nova vida, permanece incapaz de encontrar paz de espírito e continua aprisionado na sua própria raiva.
A raiva é saudável se for exprimida, trabalhada e depois abandonada. É uma forma de estabelecermos limites razoáveis com os outros e deixá-los saber quando estão a ir demasiado longe. A raiva saudável pode ser comparada a uma chama brilhante que queima e purifica, e depois se apaga, não um pneu em chamas, envolto em fumo, que queima e polui durante meses ou anos.
Se você considera que aquilo que foi dito acima se aplica ao seu caso, talvez seja o momento indicado para olhar para si mesmo com atenção. O primeiro passo para mudar é ter consciência da necessidade de mudança. Se essa auto-análise e os seus esforços sinceros não o libertarem da sua raiva, nesse caso é provável que precise de pedir ajuda, ou a entes queridos ou, talvez, a um profissional. A partir dessa auto-consciência, há muitos caminhos para a paz e a verdadeira liberdade. Embora nem todos eles sejam fáceis, a caminhada vale definitivamente a pena.
A autora deste artigo, uma terapeuta familiar e matrimonial, tem um mestrado em Psicologia Clínica. Ela exerce a sua profissão em San Rafael e Petaluma, na Califórnia, e é especializada no aconselhamento a pacientes com problemas de infertilidade e a ex-Testemunhas de Jeová. Para mais informações, por favor contacte o administrador deste site.
Nestes largos anos decorridos desde a fundação da rede Uma Ligação Comum, aprendemos que cada um dos nossos membros tem uma história única para contar sobre as suas experiências como um membro das Testemunhas de Jeová. Temos publicado as histórias de alguns dos nossos membros, na expectativa de que você encontre a força e a esperança de que precisa, e acima de tudo, a consciência de que não está só.