De pregadora a prostituta

A história de Stacy

stacy01.jpgSou filha de um alcoólico, e durante o meu crescimento senti um vazio e depressão constantes. As Testemunhas de Jeová pareciam ser a solução ideal para mim na altura, por serem rígidas e autoritárias e davam alguma estrutura à minha vida. O autoritarismo rígido era a voz que eu tinha ouvido desde sempre, desde a minha infância, por isso tudo me soava verdadeiro e familiar.

Juntei-me às Testemunhas de Jeová em 1991. Embora eu no fundo soubesse que algo estava profundamente errado, deixei os receios de lado. Por exemplo, eu não acreditava que os animais carnívoros fossem capazes de mudar as suas dietas. Em vez de causar alvoroço, depressa dei por mim como pioneira a fazer trabalho de campo, um trabalho de que eu realmente gostava. Tendo crescido numa casa de alcoólicos, aprendi a retirar prazer das mais pequenas coisas e a compreender cada indício, e além disso achava o trabalho de campo muito agradável.

Eu ainda tinha os meus problemas e a minha depressão, e era muito óbvio para os irmãos e irmãs da congregação que eu tinha problemas. Eu lutava com algumas incertezas. Eu achava que A Sentinela e a Despertai! ofereciam apenas soluções simplistas do tipo: 'Você peca? Bom, então pare de pecar!"

Eu casei-me com uma irmã chamada April, dos Estados Unidos. Ela mudou-se para a Finlândia comigo, mas em 1994 mudámo-nos para a Califórnia. Vivíamos numa pobreza extrema, com a qual eu estava confortável, mas ela não. Nós tínhamos discussões e problemas conjugais. Eu vivia num sofrimento constante. Sentia que algo estava profundamente errado, mas eu não conseguia perceber o que era.

Os problemas conjugais pioraram e a minha mulher começou a perder a fé. Os anciãos não podiam ajudar. Jeová também não estava a ajudar. Nós mudámo-nos para o sul da Califórnia e comecei a dedicar-me arduamente ao meu trabalho secular. Ambos deixámos as reuniões e o trabalho de campo. Eu não falava muito com ela e comecei a duvidar da minha identidade.

Ela deixou-me e nós divorciámo-nos. Por esta altura eu tinha descoberto que a Torre de Vigia não era uma solução para os meus problemas. Eu descobri que era na realidade transgénero; tinha o cérebro e a mente – o género – de uma mulher. Isso deixou-me de rastos e aterrorizada. Eu pensei que estava a ficar louca.

As revistas da Torre de Vigia não ofereciam nenhuma ajuda aos indivíduos transgéneros, além das generalizações e incompreensões habituais. Era claro que eles nem sequer compreendiam o assunto por vezes. Quantos mais assuntos é que as revistas apresentavam de modo incorrecto?

Eu comecei a viver como uma mulher em Janeiro de 1997, pois essa era a única maneira de testar se eu era uma pessoa transgénera ou se eu apenas tinha ficado louca. Não me cansei de o fazer, bem pelo contrário. Senti que tinha mesmo que viver como uma mulher dali em diante. Tenho vivido como uma mulher desde há três anos e estou a planear uma cirurgia de mudança de sexo.

Dado que eu tinha sido enganada pelas minhas emoções quando me senti atraída pela Torre de Vigia, tenho sido muito crítica comigo mesma quanto à minha transsexualidade.

Fui desassociada em Abril de 1997 por "mentiras, apostasia e conduta desregrada". Tive uma discussão com um ancião e ele basicamente disse que Jeová me perdoaria se em vez de viver como mulher eu me suicidasse. É esse o grau de "pecaminosidade" da transsexualidade. Para explicar a minha desassociação, eu fui acusada de me "mentir" a mim mesma, de me enganar, de viver a ilusão de me julgar mulher. A minha "conduta desregrada" incluía visitas às casas-de-banho das mulheres e com isso causar alvoroço. É engraçado, porque isso nunca aconteceu, por isso devo ter sido desassociada por antecipação. Fui também desassociada por promover a crença de que Deus não criou o ser humano como homem e mulher. Eu nunca disse nada disso. Nenhum livro da Torre de Vigia condena a transsexualidade como uma ofensa digna de desassociação.

Com o meu divórcio, e depois de me assumir, perdi a minha esposa, o meu emprego, todos os meus bens, dois carros, a minha autorização de residência, praticamente tudo o que tinha, e tive que sair do país.

Tive a minha dose de preconceito nesta sociedade, e comecei a trabalhar como prostituta para ganhar dinheiro para a minha cirurgia e para a minha vida. Uma vez que eu tinha aprendido como ser uma pessoa gentil e compassiva que suportava muita insanidade por parte das pessoas, tanto em casa como na minha vida como pioneira, faço um excelente trabalho como prostituta, e os meus clientes representam o papel de figura autoritária paternal, organizacional, ou de ancião. Muitos de vós são também prostitutas da sociedade, mas não são tão bem remunerados como eu.

Eu tentei seguir um programa de 12 passos para me libertar de todas estas relações de amor/ódio com figuras autoritárias, mas os programas de 12 passos são cultos. Ainda sinto aquele vazio dentro de mim, algo que só preenchido com truques. Estou a aprender lentamente a ser independente. Quando eu aprender a ser um indivíduo independente que não está sempre a depender de figuras autoritárias, eu terei aprendido a ser livre, e um dia caminharei livre de todos os cultos, das minhas necessidades interiores, da voz dentro de mim que me diz que não valho nada... É algo que demorará anos. Os anos passados na Torre de Vigia foram apenas um sintoma.

Perdoei as Testemunhas de Jeová individuais que me rejeitaram ou julgaram. Eu sei que, se eu estivesse na situação delas, teria feito o mesmo.