Fui educada como uma Testemunha pela minha mãe. Tenho três irmãs mais velhas: duas meias-irmãs e uma irmã por parte de ambos os pais. A minha irmã mais velha tem 32 anos e ainda é uma Testemunha. Acho que ela não é muito activa neste momento, porque o marido dela, abusivo como é, a tem agredido emocionalmente, e talvez fisicamente (embora ela não o admita), mas imagino que ela continuará a acreditar em Jeová durante toda a sua vida. A minha segunda irmã mais velha tem 31 anos e embora ela tenha sido baptizada há quatro anos, ela não é realmente uma Testemunha. A minha irmã mais próxima tem 27 anos e deixou a "Verdade" menos de um ano depois de mim. Ela não foi desassociada nem se dissociou, mas acho que ela vai ser desassociada em breve sem ela saber, porque ela tem apanhado anciãos a rondarem a casa dela e a espiarem-na pelas janelas da casa nos últimos dois meses. Ela recusa-se a falar com eles, e o marido dela também.
Tenho 22 anos, e deixei a "Verdade" há quase dois anos. Casei-me aos 18, e depois de dois anos de casamento, a minha vida tornou-se um inferno. O meu marido andava a mentir-me, e ele recebeu uma repreensão pública, tendo sido mais tarde desassociado. Eu era pioneira na altura, mas estava sob tanto stress que desisti. Foi nessa altura que os pioneiros deixaram de falar comigo. Eu tinha medo dos anciãos, e não podia dar-me ao luxo de pedir ajuda a ninguém, por isso pedi a Jeová que me ajudasse, acreditando que Ele ma iria enviar. Eu não queria continuar casada, mas não tinha bases para pedir divórcio. A minha mãe disse-me que era meu dever para com Jeová continuar casada, mesmo que estivesse infeliz, para provar a minha integridade. A minha melhor amiga estava a mudar-se. (Hoje em dia percebo que eu tinha uma paixoneta por ela. Tornei-me pioneira por causa dela, não por Jeová, e ela estava no centro de muitos dos meus sonhos, mas ignorei-os a todos.)
No meio de tudo isto, fiz-me amiga de uma irmã de uma congregação vizinha (partilhávamos o mesmo Salão do Reino). Eu passava muito tempo com ela, e quando finalmente conseguir arranjar "permissão" para me separar do meu marido, pedi-lhe para ser a minha companheira de apartamento para poder suportar os custos. (Comecei a brigar com o meu marido, e provoquei-o de tal forma que ele QUASE me bateu. Foi o suficiente para alegar que eu tinha medo de viver com ele... Hoje em dia sinto-me culpada por isso porque ele é a pessoa mais inofensiva do mundo. Se a situação tivesse sido ao contrário, e se ele me tivesse dito aquelas coisas a MIM, estou certa de que o teria agredido.) Nós não percebíamos naquele tempo porque é que éramos tão próximas, mas depois de começarmos a viver juntas não demorámos muito a reparar que sentíamos algo mais uma pela outra. Nunca senti paixão com nenhum homem... Mas senti paixão com ela, e nós estávamos a tentar desesperadamente encontrar uma maneira de lidar com os nossos sentimentos e continuarmos "fiéis" a Jeová.
Por isso deixei a "Verdade". Eu pensei que provavelmente iria morrer, mas naquele momento eu de facto não me importava. Eu decidi que todas as perguntas que eu tinha colocado em segredo desde sempre iriam finalmente ser respondidas. Eu ia descobrir de uma vez por todas se as Testemunhas tinham "a Verdade". Não me sentia mal quando estava com outra mulher, e isso deixava-me confusa. Levei alguns meses até ter coragem para escrever "Testemunhas de Jeová" num motor de busca e ler todas aquelas coisas que até então eram proibidas. Eu não pesquisei apenas sobre as TJ; pesquisei também sobre a Bíblia e a religião em geral. Examinei a teoria da evolução com um olhar objectivo. Obtive algumas noções básicas de biologia e li sobre homossexualidade, e embora eu não possa dizer que cheguei a conclusões sólidas, já não me sinto culpada por viver a minha vida.
Depois de eu ter deixado a "Verdade" e percebido que era lésbica, o meu marido e eu fizemos as pazes. Tornámo-nos amigos, e deitámos o nosso casamento para trás das costas. Quando nos divorciámos, tratámos de tudo sem quaisquer advogados ou litígios, fomos para o tribunal juntos, e ele, a minha namorada e eu fomos almoçar juntos depois de assinarmos os papéis. Ele acabou por se mudar para o nosso apartamento, o que parece estranho para toda a gente, mas funciona muito bem para nós. (Os homens heterossexuais que ouvem a história olham sempre para ele de modo malicioso. Desculpem, mas não é DISSO que se trata.)
No Outono passado quis ter um filho, e fui à procura de um dador de esperma. Eu não queria ir a um banco de esperma, e não queria MESMO ser inseminada por um médico. Eu queria conhecer o homem que ia contribuir para metade dos genes do meu filho. (O meu ex-marido era a primeira escolha, mas ele é infértil.) Este foi um processo árduo, mas acabei por encontrar (acho eu) o homem perfeito. Ele era muito inteligente, já tinha uma filha, e era muito estudioso e criativo. Ele não tinha problemas em contribuir com o seu esperma, e até se ofereceu para pagar o ensino universitário do filho quando ele fosse mais velho. A minha namorada e eu não sabíamos na altura que ele queria construir um harém pessoal, mas quando descobrimos a verdade e nos separámos... Eu já estava grávida. Tenho agora um lindo menino de dois meses de idade, e frequento a universidade a tempo inteiro. O meu filho tem duas mães e um pai muito atencioso, o meu ex-marido, apesar de ele não ser o seu pai biológico. Somos todos ex-Testemunhas em recuperação, e nós formámos a nossa própria pequena família.
Ainda me é difícil seguir completamente em frente com a minha vida. Sinto que cresci fechada dentro de uma caixa, e não me sinto normal em comparação com as pessoas que eu conheço. Sinto que o que me ensinaram ao longo de toda a minha vida não é verdade, ou pelo menos não inteiramente. Por isso, aqui estou eu, com vontade de falar com outras pessoas como eu. Não tenho problemas nenhuns em falar pessoalmente com quem me escreva por correio electrónico. O meu endereço é: deneranys@gmail.com.