Quando a ideia para esta série de artigos foi concebida, nós convidámos ex-Testemunhas de Jeová homossexuais para nos contarem as suas histórias. A resposta foi avassaladora, e não podíamos falar com todos os interessados. Jim Moon, administrador do site de apoio Uma Ligação Comum, veio de São Francisco para partilhar a sua história. Nesse encontro inicial também estava presente Mark Miller. Mais tarde, outros cinco residentes da área de Pheonix participaram numa discussão em mesa-redonda sobre as suas experiências. Nós entrevistámos outras ex-TJ homossexuais de todo o país, por telefone e correio electrónico.
Entre as pessoas que contribuíram para este segmento final encontram-se homens e mulheres, dos vinte e poucos até aos cinquenta e muitos anos. São caucasianos, hispânicos, e afro-americanos. Alguns nasceram em famílias de Testemunhas de Jeová; outros converteram-se mais tarde na sua vida. Todos partilham uma experiência comum. Foram rejeitados pela sua religião, e muitas vezes pelas suas famílias, apenas porque são homossexuais.
Todos diferentes, todos iguais
Moon deixou a sua religião de origem "por causa da sua discriminação dos gays". Enquanto adolescente, ele conheceu algumas Testemunhas de Jeová que o persuadiram a assistir a estudos bíblicos semanais. "O ancião era um vendedor de mestre, e ele sabia sempre as coisas certas a dizer e que citações bíblicas ler no momento apropriado", disse Moon. "O Armagedão estava já ao virar da esquina." Era suposto ter acontecido em Setembro de 1975, dizia o ancião. O religioso disse a Moon que, "para garantir a minha imortalidade, tudo o que eu tinha de fazer era 'deixar de ser gay' durante uns poucos meses, porque depois de eu sobreviver ao Armagedão seria 'perfeito'. Por isso a minha sexualidade deixaria de ser um problema. Foi o suficiente para me convencer!"
Quando o Armagedão não aconteceu, Moon lutou durante os anos seguintes para ser uma boa TJ e reprimir a atracção que sentia pelo mesmo sexo. Inevitavelmente, Moon conheceu um homem e começou a passar tempo com o seu novo "melhor amigo". "Para que as TJ não o acusassem de ser uma 'má associação', eu comecei um estudo bíblico com ele. (...) Uma noite, nós os dois tínhamos bebido demasiada cerveja e demos por nós na cama um com o outro", disse Moon. "Eu acordei na manhã seguinte num estado de terror absoluto." Tal como a religião exige, Moon confessou o seu pecado aos anciãos. Porque ele estava "arrependido", foi-lhe dada uma "Repreensão em Privado". Só que ela acabou por não ser assim tão privada. "O rumor espalhou-se pela congregação num ápice, e passei a ser tratado como um leproso", diz Moon. Jim Moon tentou consertar a situação durante mais alguns anos, mas acabou por ser desassociado. "Disseram-me que Jeová já não me amava", disse Moon.
Miller foi educado como uma Testemunha de Jeová. Quando ele ganhou consciência da sua sexualidade, ele tentou mantê-la em segredo para proteger a sua família. Ele sabia que os homossexuais praticantes eram desassociados. Isto significa que os membros da família não podem conviver com o membro que foi banido. Mas as congregações são deliberadamente mantidas num número reduzido, explica Miller, para que os membros se possam vigiar mutuamente. Ele alega que, assim que há uma suspeita de indiscrição sexual, o suspeito é frequentemente perseguido ou espiado. Miller mudou-se para outra cidade para escapar aos olhares vigilantes das pessoas. Ele afirma que os anciãos da igreja o "assediaram". "Eu tive que dizer: 'se vocês não se mantiverem longe de mim, eu vou arranjar uma ordem de restrição judicial contra vocês", contou Miller. Essa manobra legal funcionou durante dois anos. Mas por fim, todas as pessoas da sua vida anterior sabiam da sua homossexualidade. Os anciãos tinham que fazer alguma coisa.
A pior parte de ter sido desassociado foi que "eu convenci-me de que tinha realmente feito algo errado (...) que Deus me tinha voltado as coistas", disse Miller. Ele admitiu isso na altura e não sabia o que esperar da sua família e amigos. Ele descreve a forma como as TJ tratam os membros desassociados entre o "nem pense em olhar para ele" e o "bom, vocês são da família, convém serem cordiais."
Miller disse que a mãe dele não foi propriamente cordial. Ele recebeu cartas "agressivamente críticas" da parte dela. Quando ela soube que ele tinha colocado um piercing na orelha, ela "começou a falar sobre tudo o que os homossexuais faziam e disse que eu era imundo." Miller disse que a mãe dele acreditava que o brinco era uma forma de anunciar que ele queria ter sexo anal com homens a qualquer momento. Miller reagiu a essa insinuação dizendo "A sério? Bom, até agora ainda não funcionou!" Miller disse que as TJ "gabam-se por serem pessoas amorosas e dóceis... E vejam o ódio que elas ensinam." Ele e a mãe reconciliaram-se e fizeram as pazes – mas somente depois de vários anos de sofrimento para os dois.
Cinco outras pessoas – cinco histórias parecidas
O painel de cinco membros partilhou o impacto que a revelação da sua orientação sexual teve neles e nas suas famílias. Silvana S. cresceu em congregações de TJ em língua espanhola. Ela diz que as pessoas lá têm uma atitude diferente sobre assuntos sexuais. "Não se fala de coisas dessas", disse Silvana.
Quando ela começou a frequentar congregações de língua inglesa, Silvana descobriu que os homossexuais são considerados "aceitáveis desde que não se seja 'praticante'". Ela disse que as congregações anglófonas são obcecadas com a homossexualidade. Silava ri-se um pouco sobre a sua "saída do armário". Ela estava casada e vivia longe de casa. Ela disse que percebeu que era lésbica quando comprou um par de botas para cowboys. "O meu marido disse-me que eu parecia uma sapatona. Eu soube que o que estava a fazer era uma mentira. Tive um momento de lucidez com aquelas botas!". Silvana disse adeus ao seu marido e encontrou algumas amigas lésbicas. "Elas tornaram-se a minha família".
Quando Shanon A. tinha "talvez 17 anos de idade", a mãe dele descobriu que ele era homossexual. "Ela mandou-me ir falar com um irmão [TJ]. Ela disse que seria confidencial. Dentro de dias, "toda a gente sabia. Pediram-me para me manter longe das casas das pessoas e das minhas funções. Uma forma típica de rejeição". Ele foi exposto ao ridículo diante da sua congregação quando um ancião avisou: "Há um lobo homossexual que quer apoderar-se das nossas crianças". Shanon fugiu. Ele disse-nos que, como adolescente a viver nas ruas, lhe foi pedido que testemunhasse num caso em tribunal contra a sua antiga religião e contasse a sua opinião sobre os filhos de TJ que fogem das suas famílias e da igreja.
Melissa R., cujo pai é um ancião das TJ, disse que, durante o seu crescimento, ela assistia a três reuniões por semana no Salão do Reino. Lá ela ouviu que a homossexualidade "não é só um pecado, mas sim um pecado grosseiro". Era-lhe difícil ouvir falar de lésbicas que "eram o motivo de chacota da congregação", disse Melissa. Quando ela já não podia suportar a situação, "eu simplesmente fui-me embora". De todos os membros do painel, ela é o que está livre das TJ há menos tempo. Ela não consegue contar a sua história sem chorar. Melissa sente imensa falta da sua família, mas preocupa-se com a possibilidade de ser desassociada se contactar os seus familiares. "E o meu irmão nem fala comigo", ela acrescentou, lavada em lágrimas.
Everett I. também confessou a sua primeira experiência homossexual a um "irmão" TJ, que imediatamente contou tudo aos anciãos. Sobre o furor que se seguiu, Everett diz que "ainda guarda feridas emocionais". Everett amava profundamente a sua religião. "Eu queria ficar". A pressão psicológica de seguir os ditames da igreja e de reprimir a sua homossexualidade levaram a que ele acabasse por ser hospitalizado. Quando ele foi finalmente desassociado, "a minha mãe expulsou-me de casa. Ela disse: 'não podemos falar mais contigo'."
Scott M., castigado em criança "para não me comportar desta maneira, ou as pessoas iam achar que eu era maricas", sabia que ele não tinha escolha sobre quem era ou como agia. Por isso, em vez de sofrer a humilhação de ser descoberto e depois desassociados, Scott recusou-se a ser baptizado pela seita e deixou-a ao fazer 18 anos. Ele recorda como foi menosprezado, desprezado e até sexualmente abusado pelas pessoas que supostamente deviam amá-lo e acarinhá-lo. E pergunta: "Como é que esta pode ser a organização de Deus?"
E muitas mais cartas
Nós tivemos notícias de outras pessoas. Austen M., em San Diego, disse que seis meses depois de se casar percebeu que era homossexual mas não queria contar à sua mulher. Só que não demorou muito tempo até que ela e a congregação suspeitassem. A esposa dele e os anciãos perseguiram-no. "Era como uma caça às bruxas", disse. "Era como se tivesse a CIA atrás de mim". Austen queria separar-se da sua mulher e deixar a religião, mas não queria ser desassociado por causa dos seus familiares. Em vez disso, ele passou a evitar as reuniões e os seus deveres como pioneiro, de modo a ser declarado "inactivo". Mas os anciãos "não queriam deixar que isso acontecesse", ele disse. Eles "assediaram"-no até que um dia "me esgotaram. Eu estive à beira de ter pensamentos suicidas. Perdi mais de 15 kg."
A persistência da seita compensou. Os anciãos apanharam Austen em flagrante, por assim dizer, e ele foi desassociado. Como é óbvio, assim que isso aconteceu, ele foi separado da sua família. A recordação mais forte que Austen tem do seu crescimento como TJ é a de nunca ter tido uma infância normal. Ele diz que os filhos de TJ não celebram aniversários, o Natal ou outros feriados. Por causa disso, os filhos de TJ são muitas vezes provocados e maltratados na escola.
Ainda estamos a receber histórias de ex-Testemunhas de Jeová homossexuais a explicar os motivos da sua raiva e dor e porque é que tentaram a todo o custo não serem descobertos. Shanon fez uma síntese: "A nossa família tem o dever de nos excomungar. Bom, eu podia passar bem sem a religião. Eu só queria mesmo era manter a minha família".
Aqueles que discordam
Mas há quem não concorde com o modo como os membros do nosso painel caracterizaram as suas vidas como TJ. Gary enviou por correio electrónico a sua resposta. "Sou uma (muito) ex-Testemunha de Jeová e (muito) homossexual. Sou um membro (muito) activo do capítulo da região do Atlântico Central da rede Uma Ligação Comum", ele escreve. Ele diz que o primeiro artigo (Echo N.º 242) continha "afirmações e representações falsas" evidentes. Gary escreveu que "não estou aqui para defender as Testemunhas de Jeová. Porém, estão a prestar um muito mau serviço ao nosso grupo de apoio (Uma Ligação Comum) quando informações tão claramente distorcidas e falsas são veiculadas pela comunicação social, especialmente por ex-membros amargos (e a maior parte de nós não é amarga)."
Gary disse que se entristece ao pensar que uma TJ gay ou lésbica que tenha lido os artigos possa desistir de pedir ajuda à rede Uma Ligação Comum. Por outro lado, na sua última frase, Gary reconheceu o quão difícil é ser uma TJ homossexual, quando ele concluiu: "O vosso artigo vai infelizmente forçar muitos indivíduos atormentados a permanecerem em silêncio e a continuarem o seu tormento!"
Outra resposta por correio electrónico chegou-nos de Don S., que disse que, de acordo com a sua experiência, as Testemunhas de Jeová ensinam que Deus nos deu liberdade de escolha. "Eles percebem que existem muitos pontos de vista sobre as crenças religiosas", escreveu-nos Don. "As Testemunhas de Jeová tentam dar um ponto de vista diferente e, no seu entender, 'verdadeiro'. Cabe ao indivíduo decidir." Don reconheceu que ele estava preocupado com a hipótese de que descobrissem a sua homossexualidade, mas perguntou: "Não é isso que as pessoas fazem quando estão a fazer algo que a sua fé condena?" Ao mesmo tempo, porque o seu pai aceitou a sua orientação sexual com amor, Don disse que ele nunca sentiu que tinha sido "marcado como um pecado". Don deixou a religião "pelas minhas próprias razões" vários anos atrás, mas escreveu: "Ainda acreditou em muitas das coisas que as Testemunhas ensinam. Apenas escolhi um outro caminho."